terça-feira, 15 de setembro de 2009

O Profetismo da Teologia

Por Daniel Souza

A teologia causa medo. Ela traz crises. Dolorosos e férteis conflitos. Para os mais conservadores e fechados à novidade, ela anula a fé simples. Uns dizem: “prefiro a fé simples àquela pregada pelos teólogos”. Enquanto outros do mesmo grupo afirmam: “A teologia deve servir a Igreja, é para essa instituição que ela foi criada”. Desde que entrei nas esteiras do fazer-teológico, escuto, de forma repetida, muitas palavras contrárias ao profetismo da teologia, que se mostra como adversário, contrário ou “fora da visão” de certos modelos e instituições. Diante dessas considerações, nasce a pergunta que procura trazer sinais a essa realidade que levantei: a teologia está a serviço de quem ou de que instituição?
Teologia é antes de tudo hermenêutica, interpretação. Um esforço profundamente humano de compreender a ação e o amor de Deus por meio da realidade. A teologia se mostra, assim, como ato segundo (Gustavo Gutierrez). Ela procura falar sobre a vontade de Deus para o mundo e para a humanidade a partir da vida. Dessa forma, ela procura, sendo hermenêutica, trazer críticas, perguntas e algumas respostas às indagações que são geradas em nossas Igrejas e em nossa sociedade.
Ao se fazer teologia, não devemos partir de conceitos, embora com eles nos sintamos mais seguros. A vida é o centro! Dessa maneira, a teologia fortalece a fé. Não a fé que deseja ficar presa no monte da transfiguração (Mc 9) em cabanas para aprisionar e privatizar o sagrado. Uma fé simplória e egoísta. Mas fortalece uma fé movida por uma espiritualidade da descida, que se encarna no mundo, nas planícies, lutando contra os sinais de morte (Mc 9) e partilhando os pães e os peixes para que ninguém tenha fome (Mc 6)!
Com estas palavras, volto à pergunta: a teologia está a serviço de quem ou de que instituição? Karl Barth, teólogo alemão, apresenta a tensão existente entre Igreja e Reino de Deus. Aqui está um ponto importante da minha reflexão. O Reino de Deus não é a Igreja! Ela faz parte deste reinado, mas indubitavelmente, o Reino é maior que as nossas estruturas eclesiásticas. A Igreja é um lugar construtor de teologia, mas não tem o monopólio do pensar a fé (ainda bem!). A teologia serve ao Reino de Deus, que está centrado na vida! Reinado que se mostra contra a idolatria: do mercado, dos nossos conceitos, das nossas instituições provisórias e falíveis (Barth); reinado que tem como destinatários preferenciais as vítimas, os mais pobres, lutando pela vida justa (Jon Sobrino); reinado que caminha para a nova criação, salvando todo o mundo e a humanidade (Jüngen Moltmann). Sabemos que algumas teologias preferem outras trilhas, mais comerciais. Mas a que caminha pelos passos de Jesus não servirá aos projetos do anti-reino, não servirá a Igreja enquanto esta instituição caminhar contra a vontade de Deus e contra o evangelho... A boa teologia estará a serviço das Instituições quando elas forem “porta-voz” e testemunhas do Reino, visando o bem-estar integral do ser humano e da criação.
Por fim, a teologia é profética e será contrária a fé que domestica, que iguala (uma produção em série de novos fiéis), que reproduz respostas mofadas para situações novas. Uma teologia enraizada nessa fé responde apenas às necessidades do mercado e de uma sociedade tecnológica. Prefiro a teologia que caminhe pelo profetismo, pois nela não silenciamos a nossa voz e as nossas idéias, permanecemos na acidez da denúncia e na poética esperança do Reino...

Daniel Souza é batista

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